O impacto da honestidade intelectual na alegria

19/06/24

Entendo o ato de ser intelectualmente honesto como uma presença absolutamente verdadeira diante do mundo, do outro e — muito importante — de si mesmo; uma presença livre de atalhos do pensamento (em bom português, mentiras) que alterem a realidade para lhe apresentar de forma um pouco mais positiva ou para lhe proteger dos seus medos e inseguranças.

Em geral, o homem incorre nessas mentiras todos os dias, mesmo que raramente as perceba de forma totalmente consciente. “Estamos tão acostumados a nos disfarçar para os outros que no fim acabamos nos disfarçando para nós mesmos”, disse La Rochefoucauld.

Esse comportamento está tanto nas coisas grandes como nas pequenas. Uma mentira no currículo, por exemplo, é falta de honestidade evidente, intencional, com um propósito claro. Mas é nas pequenas mentiras, aquelas que sequer enxergamos como tais, que se revela uma disposição para a desonestidade intelectual mais profundamente sedimentada, mais difícil de reconhecer e de eliminar.

Pense nas conversas que você tem durante a seman e em que passa boa parte do tempo pensando no que irá dizer em seguida em vez de realmente ouvir o que o outro está dizendo: seu espírito está relaxado e aberto para o novo vindo do outro ou está tenso e ansioso por reconhecimento? Pense nas críticas que você faz numa roda de amigos a um conhecido em comum: você realmente acredita no que está dizendo ou está apenas explorando um assunto fácil de te deixar em evicência na conversa e no fundo sabe que nas mesmas circunstâncias talvez tivesse demonstrado as mesmas falhas da pessoa atacada? Pense na última vez em que você justificou para si mesmo o abandono de um projeto: você teve coragem de reconhecer sua própria limitação ou encontrou no mundo à sua volta algo onde depositar a culpa? Pense numa piada de mau gosto que contou para sua companheira e a fez se sentir mal: foi uma expressão genuína do seu espírito ou um efeito colateral de uma inquietação interna com que você não soube lidar?

A vida apresenta todos os dias esses pequenos momentos em que você tem a escolha entre o disfarce e a verdade, entre vestir uma máscara e ser quem realmente é.

Olhar para dentro

O homem que, diante dessas múltiplas encruzilhadas, é capaz de escolher consistentemente a verdade alcançou um dos aspectos mais importantes da maturidade emocional — um movimento que poderíamos relacionar ao Homem Integral de Joanna de Ângelis ou ao processo de individuação descrito por Carl Jung.

Jung entendia a individuação como um direcionamento do homem para seu mundo interno, em geral no meio da vida, em busca de algo que a vivência em sociedade não foi capaz de lhe dar: o encontro com a espiritualidade, o mistério, o significado da existência.

Esse processo exige uma espécie de conversa consigo mesmo, entre o ego (a parte consciente da personalidade, o centro das nossas experiências diárias, responsável pelo sentido de identidade em contato com o mundo externo) e o Self (a totalidade da psique, incluindo tanto os aspectos conscientes quanto os inconscientes).

“Temos de descobrir que usamos nossas vestimentas representacionais para proteção e aparência, mas que também podemos nos trocar e vestir algo mais confortável quando é apropriado, e que podemos ficar nus em outros momentos”, afirma Edward C. Whitmont. “Se as nossas vestes grudam em nós ou parecem substituir a nossa pele é bem provável que nos tornemos doentes.” É essencial, portanto, exercitarmos a capacidade de olharmos para dentro, entendermos quem somos de verdade — por trás da máscara que vestimos em sociedade — e nos mantermos fiéis à verdade dessa consciência interna.

Honestidade intelectual e alegria

Uma pessoa que não sabe quem é torna-se predisposta às doenças da alma. O ego é frágil e dissociado das verdadeiras intenções do espírito. Acreditar que a máscara que você veste em sociedade é seu verdadeiro rosto nubla os caminhos para o sentido da vida e cria uma pressão constante pela manutenção dessa mentira. O resultado é tensão, fragilidade e falta de propósito.

A honestidade, em oposição, é caminho para um espírito relaxado e seguro. Livre de agendas acessórias que visem o reconhecimento da sociedade, ele se vê capaz de ser ele próprio — sereno, seguro e alegre. Mesmo que ainda repleto de imperfeições, está no mundo de verdade, pronto para fazer as perguntas que importam, ouvir as respostas e caminhar com intenção e direção.