Tudo na Natureza é trabalho
12/12/23A Parte Terceira do Livro dos Espíritos trata das leis morais, das quais uma é a lei do trabalho.
Vejamos trechos de respostas a duas perguntas feitas por Kardec no capítulo dedicado a essa lei.
675: Por trabalho só se devem entender as ocupações materiais?
“Não; o Espírito trabalha, assim como o corpo. Toda ocupação útil é trabalho.”
676: Por que o trabalho se impõe ao homem?
“(…) É expiação e, ao mesmo tempo, meio de aperfeiçoamento da sua inteligência. Sem o trabalho, o homem permaneceria sempre na infância quanto à inteligência.”
677: Por que provê a Natureza, por si mesma, a todas as necessidades dos animais?
“Tudo na Natureza trabalha. Como tu, trabalham os animais, mas o trabalho deles, de acordo com a inteligência de que dispõem, se limita a cuidarem da própria conservação. Daí vem que do trabalho não lhes resulta progresso, ao passo que o do homem visa duplo fim: a conservação do corpo e o desenvolvimento da faculdade de pensar, o que também é uma necessidade e o eleva acima de si mesmo. (…)”
Na resposta à pergunta 675, portanto, os espíritos respondem que “toda ocupação útil é trabalho”. E na resposta à 677, dizem que “tudo na Natureza trabalha”. Proponho inicialmente darmos atenção a esses trechos, porque me parece que eles nos ajudam a enxergar a dedicação ao trabalho de um ponto de vista que lhe empresta um sentido mais elevado do que o que normalmente lhe damos e nos afasta da ideia de obrigação estafante e vazia que dele geralmente fazemos.
Por que você trabalha? Qual é o propósito de gastar (seria esta a melhor palavra?) oito ou mais horas do seu dia, cinco ou mais dias da semana, quase todas as semanas do ano, quase todos os anos da sua vida, servindo aos interesses de outros seres? Parece-me justo que qualquer pessoa minimamente movida pelo interesse de compreender o sentido da própria vida se faça estas perguntas. E se a única resposta viável for algo como “ganhar dinheiro suficiente para pagar as contas no fim do mês e, assim, sobreviver”, vejo apenas dois corolários possíveis: ou a pessoa que se deu tal justificação enterra essa resposta em seu subconsciente e segue a vida sem mais pensar em questões dessa ordem, ou ela se afunda em um estado de revolta ou depressão.
Afinal, encarnar na Terra e passar a maior parte do tempo trabalhando em troca do direito de sobreviver soa como castigo. Tomando como base os pressupostos de um materialista que enxerga no trabalho unicamente um meio de subsistência, seria difícil julgá-lo por questionar o sentido de estarmos neste planeta.
E, embora os espíritos aqui encarnados se encontrem distribuídos num vasto espectro de apego material — dos mais materialistas aos mais espiritualizados —, arrisco dizer que boa parte deles, mesmo muitos entre os mais espiritualizados, consciente ou inconscientemente caminham pela vida profissional movidos por uma visão do trabalho reduzida justamente a essa perspectiva utilitária e dinheirista.
Uma forma eficaz de testar essa afirmação em si próprio é por meio de uma abordagem invertida, fazendo-se a seguinte pergunta: se de repente eu ganhasse um montante enorme de dinheiro, suficiente para me prover uma vida luxuosa até o fim desta minha existência, eu continuaria trabalhando? Não me parece arriscado especular que para a imensa maioria das pessoas a resposta seria “não”. Porque no fundo, para a maioria de nós, o trabalho é, sim, o castigo diário a que o destino nos submeteu como forma de atingirmos recompensa monetária que nos permita adquirir aquilo que nos parece necessário para ter a vida que desejamos ter.
O trabalho é uma Lei da Natureza
Retornemos, então, às respostas dos espíritos. Em sua codificação da doutrina, Kardec classificou o trabalho como uma lei moral. Se é uma lei, então trata-se de uma obrigação, imposta não pelo homem, mas por Deus (ou pela Natureza, se preferir). Isto significa que a ociosidade, que é o contrário do trabalho, é uma infração a uma lei divina.
É importante, no entanto, nos esforçarmos para entender essa lei de um ponto de vista racional, sem apenas aceitá-la como imposição inquestionável — forma de pensar que o Espiritismo rejeita.
No contexto da Doutrina Espírita, uma lei divina ou natural é — como explicam diversas respostas do capítulo I da Parte Terceira do Livro dos Espíritos — uma lei de Deus, perfeita, eterna e imutável, única verdadeira para a felicidade do homem, que lhe indica o que deve ou não fazer para ser feliz. Está inscrita na consciência de todo ser-humano, mas em espíritos inferiores fica esquecida por ação dos maus instintos.
Vamos analisar brevemente outro exemplo de lei natural: a lei do progresso. Tudo na Natureza evolui, e o homem — ainda que quisesse — seria incapaz de paralizar a marcha do progresso. O homem e os animais crescem, definham e morrem; os corpos celestes se movimentam em determinada direção; as estrelas nascem e se extinguem; o rio corre da nascente para o mar; o conhecimento coletivo se expande. Estamos tão acostumados ao fato do progresso que nos esquecemos de que poderia não ser assim. O universo poderia ser estático. Mas não é. E não o é porque está sujeito a uma lei natural: a lei do progresso.
Pois bem, o mesmo se passa com a lei do trabalho, mas temos ainda mais dificuldade de enxergar esse fato, entre outros motivos porque fazemos uma ideia reducionista do conceito de trabalho. Pensamos no trabalho como o esforço dedicado a uma empresa em troca do salário. Como poderia essa relação tão banal e mundana ser efeito de uma lei divina? Mas, como responderam os espíritos a Kardec, toda ocupação útil é trabalho. As árvores se ocupam de trocar dióxido de carbono por oxigênio; os insetos se ocupam da polinização; o sistema digestivo se ocupa de digerir o alimento; os donos e donas de casa se ocupam de manter a casa em ordem; os pais se ocupam de educar os filhos; os estudantes se ocupam de elevar seu conhecimento; e, sim, os profissionais assalariados se ocupam dos propósitos de suas empresas.
Nada no universo é ocioso por natureza. Onde há ociosidade é porque temporariamente aí falta trabalho, assim como a escuridão é a falta da luz e o mal é a falta do bem. Quando enxergamos isso, fica mais fácil entender o trabalho como lei. Dizer que estamos sujeitos à lei do trabalho não significa castigo eterno, simplesmente porque a palavra “trabalho” deixa de ter a conotação de uma obrigação imposta e indesejada. Significa somente que o universo tal como o conhecemos é inconcebível sem o trabalho, e qualquer movimento contra essa lei está fadado ao fracasso.
Se a natureza do trabalho na Terra nos parece rude, não é porque o trabalho é em si mesmo rude, mas porque a Terra é um planeta de provas e expiações, populada por espíritos encarnados em corpos ainda grosseiros. Em planetas mais elevados o trabalho será menos material (e melhor compreendido).
Propósito
E por que trabalhamos? Com qual propósito?
O trabalho do homem “visa duplo fim”, dizem os espíritos: “a conservação do corpo e o desenvolvimento da faculdade de pensar, o que também é uma necessidade e o eleva acima de si mesmo”.
E na resposta à pergunta 676: “É expiação e, ao mesmo tempo, meio de aperfeiçoamento da sua inteligência. Sem o trabalho, o homem permaneceria sempre na infância quanto à inteligência.”
De fato, esforce-se para, enxergando por um instante o trabalho do ponto de vista mais amplo que desenhamos acima, imaginar um mundo onde de repente deixa de existir qualquer tipo de trabalho humano. Numa manhã qualquer dos seus 20 anos de idade, você acorda, deixa sua cama e se posta em uma espreguiçadeira à beira da piscina. Pelos próximos 60 anos da sua vida, você repete essa rotina diariamente. E depois pelas próximas 10 encarnações. Passados mil anos, você não aprendeu nada, não construiu nada, não foi útil a ninguém. Numa Natureza onde, como dissemos, tudo é trabalho, você é uma anomalia. E o seu destino, agora sim, é um castigo doloroso. Nas palavras dos espíritos, “a ociosidade seria um suplício, e não um benefício”.
Estamos na Terra para sermos colocados diante de desafios e com eles aprendermos. O trabalho, além de nos permitir conservar nosso corpo, é um laboratório da alma: é onde mais nos vemos em atrito, somos obrigados a fazer escolhas, decidir entre paixões superficiais e valores profundos. É onde somos colocados frente a desafios morais e intelectuais e onde encontramos — se estivermos atentos — um conjunto enorme de oportunidades para expandir nossos limites intelectuais e rasgar o véu que cobre nossa consciência.