Os limites da linguagem no evangelho

07/12/23

O filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein disse famosamente que “os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo”. Há, como de costume, muitas formas de interpretar essa frase. E neste texto quero tomar uma abordagem que nos permita refletir sobre um dos aspectos mais comentados do evangelho de Jesus: o que diz respeito à forma metafórica e por parábolas que Ele usou para transmitir a Boa Nova.

Vamos começar por uma imagem que em princípio pode lhe parecer grotesca. Imagine que você recebeu a missão de ir a uma floresta para viver como integrante de um bando de macacos e ensiná-los sobre amor, fraternidade, humildade, caridade e felicidade. Assim que chega à floresta, você parte então para coletar os endereços de e-mail dos macacos e depois envia um e-mail a todos eles, convocando-os para uma palestra. No dia e hora marcados, todos os macacos da região aparecem no local combinado e formam fila para entrar na sala de aula. Uma vez lá dentro, eles se posicionam em suas carteiras. Você começa a discursar sobre os conceitos que quer ensinar, escrevendo na lousa, e eles prestam atenção, anotando em seus cadernos e levantando as mãos para tirar dúvidas.

Esta cena, propositalmente esdrúxula, serve para nos mostrar a impossibilidade de um ser-humano se comunicar com macacos usando os métodos próprios de sua espécie. E o que estou chamando aqui de método tem muito a ver com a nossa linguagem, num sentido mais amplo do que o idioma apenas. Seres humanos partilham vocabulário, códigos orais e gestuais, convenções que dão sentido a coisas como filas e palestras, pressupostos e formas de pensar que permitem, partindo de uma base comum a quem fala e a quem escuta, engendrar imagens comunicativas, e não apenas palavras ao vento, ou seja, comunicação que cria sentido na cabeça do ouvinte. Para os macacos da nossa cena, isto é impossível - o orador à frente da turma neste caso não é um orador, porque isso não existe para os macacos, nem a aula é uma aula, por que o que é uma aula? O que é um conceito? E, antes ainda, o que é ser? Etc.

Como, então, um biólogo - ou, mais especificamente, um primatólogo - agiria na tentativa de se comunicar com os macacos da nossa floresta? Em primeiro lugar, ele provavelmente abriria mão já de saída de cumprir missão tão complexa quanto ensiná-los sobre os valores cristãos. Dada a distância entre as linguagens (“os mundos”) do homem e do macaco, isso seria simplesmente impossível. Ele teria de se ater talvez a rudimentos desses conceitos. Buscaria, quem sabe, mostrar o valor de se reduzir a agressividade em relação a outros macacos e de se buscar a cooperação.

Em segundo lugar, ele provavelmente comunicaria esses conceitos por meio de vocalizações rudimentares - sem palavras -, gestos, postura, símbolos simples. Teria de se adequar, portanto, ao espaço simbólico compartilhado com os alvos da sua comunicação.

Pois bem. Talvez você já tenha entendido que, para espíritos super evoluídos como Jesus, nós somos os macacos. É lógico pensar que se Jesus houvesse usado a linguagem própria dos espíritos do seu grau de evolução para se comunicar conosco, não teríamos entendido nada. Seríamos como macacos saltando de um lado a outro da sala de aula assistindo a um ser estranho gesticular e emitir sons incompreensíveis sobre o tablado.

Ao materializar-se na crosta terrestre, Jesus assumiu uma linguagem e um espaço simbólico que lhe eram muito inferiores, mas que eram necessários para permitir a comunicação com a humanidade.

E uma vez que estamos todos (individual e coletivamente) em uma trajetória de evolução, é justo concluir que a humanidade de dois mil anos atrás estava ainda menos preparada que a atual para entender os conceitos elevados do cristianismo. Por isso, partes do evangelho hoje nos parecem estranhas se as lermos sem o distanciamento histórico e sem considerar que a linguagem por meio de parábolas que o caracteriza era a necessária para atingir a compreensão da humanidade daquele momento (embora os valores que o fundamentam permaneçam tão úteis quanto então).

Essa conclusão pode ser contra-intuitiva, porque uma pessoa não conhece aquilo que não conhece, então é impossível para qualquer um de nós cogitar o que seria esse espaço linguístico exterior aos limites da sua linguagem, pela própria natureza dessa relação. Nossa capacidade de cogitar, mesmo as ideias que nos pareceriam mais loucas, termina onde termina a nossa linguagem. Mas o inefável (aquilo que não se pode dizer ou descrever em razão da sua natureza) não o é de forma absoluta, porém relativo a cada pessoa, dados os limites da sua linguagem (e, portanto, seguindo Wittgenstein, do seu mundo). O que é inefável para nós não o é para Jesus.

Vale dizer, por fim, que reconhecer os limites da linguagem do outro e adaptar sua própria à dele para se fazer entender é um ato de caridade. E a expressão máxima desse ato que conhecemos é o evangelho de Jesus.