Não basta conhecer a verdade para vivê-la
06/11/23Imagine que você está estudando matemática. Você quer aprender, digamos, a encontrar os valores que satisfazem uma função de segundo grau. O professor tem ao menos duas formas de te transmitir o conteúdo:
Ele pode te explicar a teoria e depois mostrar um exemplo de resolução de um problema, aplicando a teoria ensinada e chegando à solução.
Ele pode te explicar a teoria e então te passar uma lista de problemas para você tentar resolver.
Qualquer pessoa que já estudou matemática sabe que a segunda opção é a única capaz de realmente te preparar para resolver problemas mais à frente. Por mais que a teoria seja bem explicada, é apenas se colocando na posição de quem precisa, por conta própria, entender o problema e encontrar soluções que você aprenderá de verdade.
E o mesmo é válido para qualquer outra disciplina. Quando apenas ouvimos ou lemos uma explicação, somos observadores passivos. Já quando tentamos resolver um problema, nos colocamos numa posição ativa, de criadores.
E em geral não basta resolver um problema apenas, por dois motivos principais: primeiro, porque todo problema tem múltiplos ângulos. Você pode ter entendido o que era necessário para resolver o primeiro, mas o segundo pode trazer um subproblema diferente, te obrigando a pensar de forma também diferente. Segundo, porque transformar-se em alguém que sabe é um processo, exige trabalho contínuo, de forma a adquirir-se o hábito.
Por isso, ninguém torna-se matemático depois de resolver meia dúzia de problemas; ninguém publica uma obra-prima literária depois de ler cinco livros e escrever uma redação de colégio; e, da mesma forma, ninguém atinge elevação espiritual depois de assistir a uma palestra espírita ou ler todos os livros de Kardec.
Transformação espiritual (seja ela intelectual ou moral) também só se adquire por meio da prática, fruto de trabalho intencional e consistente.
Isso ajuda a explicar por que, em vez de passarmos pelas provas e expiações terrenas, não somos logo simplesmente apresentados a toda a verdade. “Não seria mais fácil que o plano espiritual se mostrasse a todos os encarnados?”, perguntam muitos.
Mas o fato é que expor a verdade, como dissemos, não é suficiente - e, em verdade, reduziria a eficácia das provas. Seria como entregar todas as respostas aos alunos e privá-los do exercício.
Toda prática capaz de trazer resultados úteis impões dificuldades. Pense em qualquer objetivo construtivo da vida: estudar, trabalhar, fazer dieta, exercitar-se, treinar esportes, aprender novos idiomas, adquirir hábitos saudáveis… Tudo isso traz atrito, impõe resistência ao esforço. É mais fácil não fazer do que fazer.
Seria de se esperar, portanto, que transformar-se moralmente - talvez a “utilidade” máxima da vida na Terra - trouxesse desafios, atritos, resistência. Porque é justamente no esforço para vencer essa resistência que se encontra a evolução. É fazendo o exercício matemático que se aprende matemática; é tentando escrever literatura que se aprende a ser escritor; é correndo que se torna um corredor; e é colocando nosso próprio orgulho à prova que aprenderemos a ser humildes, caridosos e descobriremos o amor.