Sobre o egoísmo
04/01/23Em diversos livros os espíritos superiores nos dizem que o egoísmo é hoje o principal obstáculo no caminho de evolução espiritual de quem vive na Terra.
Do Livro dos Espíritos:
- Dentre os vícios, qual o que se pode considerar radical? “Temo-lo dito muitas vezes: o egoísmo. Daí deriva todo mal. Estudai todos os vícios e vereis que no fundo de todos há egoísmo. Por mais que lhes dei combate, não chegareis a extirpá-los, enquanto não atacardes o mal pela raiz, enquanto não lhe houverdes destruído a causa. Tendam, pois, todos os esforços para esse efeito, porquanto aí é que está a verdadeira chaga da sociedade. Quem quiser, desde esta vida, ir aproximando-se da perfeição moral, deve expurgar o seu coração de todo sentimento de egoísmo, visto ser o egoísmo incompatível com a justiça, o amor e a caridade. Ele neutraliza todas as outras qualidades.”
Proponho neste ensaio, portanto, um estudo do que é o egoísmo e de como ele se transforma no dia a dia do ser humano em atitudes vis a que damos distintos nomes, sem perceber que em comum têm a mesma causa-raiz.
Uma vez descrita a causa, proponho também uma reflexão sobre os possíveis remédios. O que pode o ser humano fazer — não em termos grandiosos e heróicos, mas em seu cotidiano — para extirpar o egoísmo de seu próprio espírito?
Definição
Comecemos com uma tentativa de definição de egoísmo tirada do dicionário:
Atitude daquele que busca o próprio interesse, acima dos interesses dos demais.
Do ponto de vista filosófico: Doutrina que converte o interesse individual em princípio diretor de conduta.
De ambas as definições acima, podemos deduzir uma forma de pensar — que se transforma em atitude — que coloca o interesse daquele que assim pensa como fator determinante das decisões (o tal princípio diretor de conduta). Ou seja: eu, ser egoísta, no momento de tomar uma decisão, opto pela alternativa que me parece beneficiar a mim, em detrimento dos possíveis efeitos no outro.
Exemplos do cotidiano
Ao procurar exemplos de atitudes egoístas, me parece que tendemos a buscar na mente imagens impactantes que demonstrem um grau elevado de egoísmo — e que, por conseguinte (e, talvez, propositadamente), nos afastam dessa característica, como se ela estivesse apenas no outro, nunca ou raramente em nós.
Usei, no entanto, a palavra “grau”. Porque em muitos graus se manifesta o egoísmo, e acredito que dedicamos pouca atenção às nossas próprias demonstrações de egoísmo em menor grau. Ao fazê-lo, talvez nos surpreendamos com a quantidade de vezes num só dia comum em que de múltiplas formas tomamos atitudes movidas pelo egoísmo — muitas delas sem prejuízo direto ao outro, mas todas certamente com prejuízo a nós mesmos.
Vamos passar por alguns exemplos com que talvez o leitor se identifique, desde que reflita com sinceridade e pelo menos o desejo de erguer o véu de orgulho que nos impede de reconhecer a raiz das nossas próprias atitudes.
1.
Estou em uma reunião de trabalho com todo o time. Tenho uma tarefa sob minha responsabilidade desde ontem de manhã, mas ainda não tive tempo de atacá-la. Meu chefe, durante a reunião, pergunta em que pé está essa tarefa.
Nesse momento, meu espírito se inquieta com o seguinte raciocínio: “se eu disser a verdade, o time inteiro poderá me tomar por incompetente por ainda não ter feito nada da tarefa; se eu trabalhar até tarde hoje, consigo entregar; melhor, então, dizer que já estou no final da tarefa e depois me esforçar para entregar ainda hoje”. E assim procedo.
Minha atitude foi mentir — em negrito porque aqui considero importante dar às nossas atitudes seus nomes corretos, evitando desvios linguísticos que tentem suavizar o erro e, assim, nos enganar. Eu menti.
E por que menti? A raiz dessa atitude é o que mais nos importa neste estudo. Menti movido pelo medo de ser visto pelos demais como alguém que, na minha concepção de profissional ideal, está aquém da imagem que eu deveria projetar de mim.
A alternativa seria dizer que ainda não comecei a tarefa, e isto feriria o meu orgulho. Ou seja, iria contra o sentimento de prazer que tenho ao pensar em como o outro me enxerga.
Daí resultam duas reflexões que eu gostaria de destacar:
a. Ao mentir, eu coloquei o meu interesse (preservar a imagem pública de um profissional competente) acima do interesse do outro (o interesse do time de saber a situação de seus projetos e poder, com isso, tomar as melhores decisões possíveis).
b. O meu interesse não parece ser exatamente pela preservação do Eu verdadeiro, mas sim de uma imagem que me esforço em projetar desse Eu. E ao fazê-lo, eu reforço para mim mesmo o erro, a perpetuação de um descasamento entre o que eu sou e o que eu gostaria que os outros achassem que sou, nublando a distinção entre essas duas coisas e dificultando a consciência do que sou de verdade. Essa consciência nublada, ao perpetuar-se, funciona como combustível do orgulho e impede minha evolução. Caso alguém me perguntasse “Quem é você? Onde estão as maiores oportunidades para se melhorar?”, eu saberia responder? Ou teria eu mesmo já me perdido em meio aos corredores do castelo de areia que é o meu Eu artificialmente construído para enganar o mundo terreno?
2.
Estou sentado a uma mesa de restaurante com dois amigos. Um deles está contando sobre a viagem que acabou de fazer à França. Enquanto ele fala, parte pequena da minha atenção está no sentido das suas palavras e nas imagens que ele descreve; a parte maior está abastecendo minha mente superexcitada de palavras que eu mesmo poderei dizer quando chegar a minha vez de falar. Eu já fui à França e tenho memórias que se conectam com um ponto da história que meu amigo acabou de contar. De tão ansioso por trazê-las à conversa, eu interrompo meu amigo para dizer: “Ah, eu fui a esse museu também! Aconteceu uma coisa incrível quando estava lá. Andando pela ala egípcia, eu…”
Qual era, portanto, a minha intenção primordial nessa conversa? Arrisco dizer que não era ouvir/aprender/descobrir (e também não era o contrário disso, ou seja, falar/ensinar/dar a saber). Antes, era colocar-me sob o holofote, trazer importância à minha história, às minhas experiências. Ou seja, nesse exemplo eu uso a conversa como meio para colocar o Eu diante do outro; para mostrá-lo como referência a ser admirada e aplaudida. Os momentos do outro diante de mim são apenas interrupções na minha performance, durante as quais eu varro minha mente em busca de novas palavras de efeito e avalio o melhor momento para voltar à cena com elas.
Com isso, substituo a oportunidade da comunhão genuína e do aprendizado a partir da perspectiva do outro por uma tentativa egoísta de ser admirado, numa busca mendicante por atenção que nutra meu ego e assim perpetue meu estado de pequenez. Recuso a expansão do meu ser em nome da segurança de me ver reafirmado no pouco que sou — e que talvez sequer seja de verdade, mas apenas repita a mim mesmo que sim.
Ouvir em silêncio e com atenção verdadeira é prova de humildade e caminho de crescimento. Preencher todo espaço possível com as próprias palavras é sinal de egoísmo e estagnação do espírito.
Estado de auto-observação
O que pode o ser humano fazer para extinguir o egoísmo de seu espírito?
Em primeiro lugar, saiba que se trata de uma longa batalha. Não conheço quem vença os próprios vícios em semanas, meses ou mesmo décadas. Em verdade, é muito provável que mesmo aqueles que lutam diariamente contra esses vícios desencarnem ainda prenhes deles, porém em menor grau. Tempo haverá para continuar a batalha.
Em segundo lugar, é fundamental que à luta contra o egoísmo preceda a disposição para, de forma constante e intencional, colocar-se em vigília; em um estado de auto-observação. Afinal, sem ao menos buscar a fonte do rio envenenado e dirigir-lhe a atenção, impossível torna-se purificá-lo. E a fonte dos seus vícios é seu próprio espírito.
Quanto mais radicalmente intencional for essa vigília, mais desvios seremos capazes de identificar e, portanto, mais oportunidades de correção encontraremos.
Caridade
Em estado de vigília, deixamos nosso espírito preparado para reconhecer o egoísmo. O passo seguinte é aplicar-lhe seu antídoto, que é a caridade.
Se ser egoísta significa colocar os interesses do Eu acima do outro, ser caridoso significa colocar o outro em primeiro lugar.
É vocação do espírito amar o próximo. Portanto, ainda que hoje você não encontre em si mesmo o desejo completamente genuíno de servir ao outro em detrimento de seus próprios interesses, faça-o mesmo em dúvida. Ao dar o primeiro passo, você coloca em movimento o motor da sua ação benfeitora no mundo, que está intimamente conectada a uma perspectiva mais humilde da vida e ao mesmo tempo à sua serenidade, seu bem-estar e sua evolução espiritual.
Trata-se de um círculo virtuoso, em que a caridade nos faz exercitar a humildade, extinguir o egoísmo e reconhecer-nos irmãos, filhos de Deus.