É mais fácil ver o egoísmo alheio que o próprio
28/11/22É curioso como tão frequentemente o ser-humano, no ato de apontar o egoísmo do outro, demonstra sem perceber seu próprio egoísmo. Vou contar dois episódios fictícios, porém inspirados na realidade, para explicar a que me refiro.
1.
Um homem sai de carro de casa em um domingo à tarde para almoçar com a família. Ele está no voltante, e o domingo é de muito trânsito. Em determinado ponto do caminho, forma-se uma longa fila de carros diante de um cruzamento. A cada abertura do sinal, não mais que três carros atravessam o cruzamento.
Depois de alguns minutos andando poucos metros por minuto, o carro logo atrás do homem corta pela contra-mão quando o sinal está fechado e por aí segue até o cruzamento, ultrapassando cerca de dez carros.
Ao ver essa cena, o homem comenta para a esposa, que está no banco do carona: “É impressionante como falta empatia às pessoas! Você viu o que esse cara fez? Simplesmente ultrapassou todo mundo que está esperando aqui na fila pela contra-mão. É muito egoísmo.”
Será que a motivação desse comentário foi unicamente a observação do fato? Ou será que parte grande da motivação do homem não foi afirmar sua própria superioridade moral frente à falta do outro?
Teria o homem feito esse comentário se não tivesse de alguma forma se sentido intimamente atingido pela ação do outro? (Eu perdi um lugar na fila. O outro motorista feriu o meu direito de estar à frente porque cheguei antes.)
2.
Uma mulher, estudante de psicologia, sente-se cansada por ver tanto egoísmo à sua volta e decide estudar o assunto. Passa a buscar literatura sobre o tema e a fazer uma série de observações em um caderno. Nele, escreve sobre a tendência do ser-humano a projetar sempre a própria imagem como centro do universo.
Como resultado do estudo, certo dia, enquanto escova os dentes, ela percebe que gostaria de escrever um livro a partir de suas anotações. Aquela ideia lhe chega como uma epifania luminosa. E sob o holofote principal dessa epifania, o que ela enxerga é a si mesma sendo reconhecida como escritora de sucesso; enxerga a si mesma recebendo prêmios, dando entrevistas, gerando curiosidade sobre a sua pessoa, vendo seu nome e sua imagem tornarem-se conhecidos.
Qual seria a motivação maior da decisão de escrever o livro? O compartilhamento de conhecimento ou a antevisão da fama? A possibilidade de influenciar o mundo positivamente rumo a um futuro menos egoísta ou a perspectiva do sucesso profissional e financeiro?
Em resumo, me parece que grande parte das vezes em que apontamos o egoísmo no outro estamos recorrendo à comparação com nós mesmos, como forma de trazermos luz à nossa suposta superioridade. Ou seja, estamos nós mesmos sendo egoístas sem perceber.